RESTINGA DO LITORAL SUL DO RGS - PALMARES DO SUL - MOSTARDAS
- TAVARES
Esta é possivelmente a mais deserta e esquecida
região do RGS; a restinga que se estende por cerca
de 250 km, desde a latitude aproximada de Porto Alegre,
até as cidades de São José do Norte
e Rio Grande, na ligação da Lagoa ( laguna?
) dos Patos com o mar, cuja estrada de acesso tem hoje
mais da metade de seu percurso pavimentado, permitindo
a ligação direta das principais sedes municipais
do percurso com a capital. A pavimentação
já atinge PALMARES ( do Sul ), MOSTARDAS e TAVARES
e dali mais 18 km, deixando antever a próxima conclusão
das obras que avançam também a partir de
São José do Norte.
Essas
localidades e sua população sofrida (
e de estatura média bem menor do que estamos
acostumados a encontrar em outras áreas do RGS
), ligada ao mundo pela famosa "estrada do inferno",
passaram a usufruir do conforto mínimo do acesso
pavimentado e ali se abre a mais recente e extensa fronteira
de expansão econômica do RGS, pela intensa
atividade que se observa em alguns setores como reflorestamento,
que ocupa segundo alguns cálculos, 120 mil hectares
ou cerca de um quarto das terras da região.
Para chegar à RST-101, a partir de P ALEGRE,
passamos por VIAMÃO, cidade ao largo da qual todos
passam mas poucos visitam e cuja antiquíssima
Igreja Matriz, construída e revestida com
argamassa que incluiu óleo de baleia como aglomerante
e além dos belos altares laterais, uma bonita
fachada ( foto ) de janelas incomuns e já foi objeto
de tanta publicidade e até marca de um dos melhores
vinhos do RGS, ali produzido nas décadas de 70
e 80.
Já
pela altura de Águas Claras / VIAMÃO,
vemos um alerta de quem é que manda nesse pampa
inóspito, com as ruínas de um grande pavilhão
agrícola ( foto ), esmagado pela pressão
dos ventos de tempestades não tão recentes
assim. A estrada se estende na direção
oeste-leste, de CIDREIRA / PINHAL e outros balneários
menores, cruzando planícies de cultivo de arroz
e criação de bovinos e ovinos, enquanto
silhuetas preguiçosas de lagoas rasas se estendem
paralelas aos horizontes, até CAPIVARI DO SUL,
onde trocamos da estrada oeste-leste para a RST-101,
que nos levará do norte-sul, inicialmente a PALMARES
DO SUL e onde começa a intensa atividade de reflorestamento
( foto ) de eucaliptos entremeados de apiários
( foto ), mas principalmente de pinus, árvore
exótica que tão bem se adaptou a nosso
clima e onde desenvolve com rapidez inalcançável
em suas regiões de origem, e que abastece a industria
moveleira e de construção gaúchas.?
Além
da atividade apícola, que temos notícia
ser importante e desenvolvida com boa técnica
e produtividade nessa região, em associação
ao cultivo de eucaliptos ( que consta produzir um quilograma
de mel por árvore de porte por ano ), vimos uma
propriedade com criação de avestruz (
ou emas ? ) ao longo da rodovia ( foto ), mostrando
que há empreendedores testando diferentes potenciais
produtivos da região.
No
CECLIMAR de IMBÉ, ligado à UFRGS, há
fotos de satélite de 3 décadas atrás,
mostrando essa região de restinga ( faixa de
areia entre lagunas e mar, resultante da deposição
de areia pelas correntes marinhas litorâneas ),
sem nenhuma ou com rala vegetação e hoje
a viagem tanto pela beira do mar quanto pela RST-101,
mostra enormes extensões de florestas homogêneas
( foto ) de propriedade de diversos grupos econômicos
( Renner Hermann / Flosul, Madem, Isdra, Ari Leite,
entre outros ), chamando a atenção dos
interessados tanto em ecologia quanto na economia do
RGS.
Na
Flosul / CAPIVARI DO SUL, o gerente Raul mostrou-me
partida de madeira sendo preparada para remessa à
Belém do Pará, apoiada no "Selo Verde"
da empresa que só trabalha com madeira plantada,
exemplo eloqüente do potencial da produção
madeireira dessa região até há
pouco esquecida do RGS.
Nos
restaurantes de beira de estrada em frente à
Flosul, os motoristas dos caminhões que chegam
trazendo madeira cortada das florestas ou que saem levando
madeira beneficiada para exportação ou
mercado interno e os que levam madeira picada dos resíduos
do processo para queima nos fornos de indústrias
cerâmicas de SC, fornecem variadas informações
sobre cotações ( R$100,00 = U$40,00 /
ton de cavacos de madeira piscada para queima em fornos
cerâmicos ); importância econômica
dos empreendimentos envolvidos; distâncias de
transporte e momento mais ou menos favorável
de cada atividade da região.
Além
da madeira ( e consequentemente diversas madeireiras
como a da foto ) e da pecuária, as alternativas
econômicas da região e seus solos arenosos
e pobres pouco avançam além do cultivo
da cebola ( foto ), produto pouco compensador e de
preços muito oscilantes, principalmente pela
impossibilidade de estocagem, pois conserva-se mal e
por pouco tempo e não admite congelamento, esmagando
o produtor com cotações irrisórias
no período da safra, enquanto o consumidor enfrenta
preços altos na entre-safra, comprando cebola
vinda de locais remotos e pagando fretes elevados.
PALMARES é a maior cidade da região e
tem uma população de apenas 12.600 habitantes.
O prédio da PM chama a atenção
pela ordem e limpeza e na recepção uma
foto aérea mostra de imediato as dimensões
da cidade, sua planta viária e principais prédios,
além de situar o rio que lhe banha e limita ao
sul, protegido pela mata ciliar variada e cuja margem
abriga o antigo porto da cidade e hoje funciona a Cooperativa
Orizícola ( foto ) que escoa parte do arroz
produzido no município. Na recepção,
procuramos primeiro com a sra Noemi, alguma informação
sobre os principais atrativos turísticos oferecidos
pela cidade e seus arredores.
A
PM está integrada à Internet e recebe
mensagens no pmps@terra.com.br e no rs036088@pro.via.rs.com.br
. No gabinete do Prefeito João Tadeu Vasconcellos
da Silva, que nos sugeriu os pontos de visitação
e passeios mais procurados e atraentes do município,
a secretária Elise Lessa forneceu detalhes sobre
a cidade e mostrou um extenso trabalho de pesquisa,
com a história do município; mapas e fotos
dos primeiros prédios e fatos históricos;
estudos sobre as origens da população
e a estrutura de produção econômica
e atrativos turísticos.
Visitando
a Peixaria Zingara, onde soube da importância
da pesca na lagoa para muitas dezenas de famílias
que vivem naquele local ( foto ) com a ajuda de um
dos proprietários, Julio Cezar Rechmacher, tratamos
com um pescador um passeio pelo rio Palmares até
as proximidades da foz da lagoa do Casamento, em verdade,
parte da Lagoa dos Patos. Paisagens bonitas, água
calma escorrendo preguiçosas, cerca de um metro
apenas abaixo do nível da planície e da
cidade em torno; mata nativa variada nas margens, embora
com pouca largura em alguns pontos, com aguapés,
e cactos convivendo num mesmo local ( foto ); biguás
trincando o espelho da água e muitos outros pássaros
silvestres nos arbustos praticamente dentro da cidade.
Além
do balneário de Quintão, situado no município
e da Prainha, situada na foz do rio Palmares na Lagoa
do Casamento; da Lagoa da Porteira, com belas paisagens
campeiras e variada fauna, PALMARES orgulha-se das orquídeas
nativas de suas matas e promoverá em outubro/2001
uma festa de promoção turística
da cidade ( divulgada entusiasticamente em cartazes
e folhetos ), centrada na abundância dessas flores.
Infelizmente
e como em todo lugar, vemos lixo lançado ao rio
( foto ) por quem desconhece o dano que causa à
água que bebe, à paisagem, à pesca
e ao turismo (economia) do lugar em que vive. É
"tiro no pé".
Em
uma hora de barco, se vai à Ilha Grande ( mapa
__ ), no lado oposto da Lagoa do Casamento, na junção
com a Lagoa dos Patos, que consta ser propriedade privada
mas aberta à visitação, passeios
e acampamentos de pesca e/ou fim de semana e apesar
de não oferecer estrutura turística, tem
locais e paisagens sobre a lagoa muito bonitos.
A
cidade tem hotéis simples: Pensão Lopes,
Big Hotel e Palmares Shopping Hotel, todos com recursos
variados e preços acessíveis, sendo o
último o mais novo e ainda em fase de conclusão
de alguns apartamentos, enquanto já funciona
em meio a lojas e lanchonetes de uma espécie
de centro comercial, mas recomenda-se ao visitante examinar
pessoalmente os quartos dos hotéis e preços
antes de escolher.
MOSTARDAS, com população de 9.400 habitantes,
é a maior cidade da região ( única
das 3 citada no Guia 4 Rodas de 2000 ) e tem ruas em
esquadro, aparentando plano urbano, ainda que simples.
A praça central é graciosa - apesar do
medonho reservatório de água da Corsan,
costume infeliz de outras épocas - e abriga um
quiosque de promoção e vendas do artesanato
Mostardeiro, de lã natural, tradicional do município.
O
artesanato de lã crua é largamente incentivado
pela Prefeitura Municipal de MOSTARDAS, que mantém
um prédio ( foto ) onde mulheres como a sra
Janete lavam os velos de lã ( foto ) e os
põe a secar em varais ( foto ); selecionam
a lã por cores ( preta, parda, cinza e branca
) e removem pedrinhas e gramíneas misturadas,
depois cardam a lã dos velos para servir às
rocas de fiar; fiam a lã em novelos redondos
( fotos e ) que depois vão para os teares
muito rústicos, onde a lã é trançada
com fios de algodão ou lã mesmo ( fotos ), para finalmente serem ou não cardadas,
dependendo do acabamento desejado para a peça,
que costuma variar do tapetinho de telefone (?!!), de
grande procura, ao cobertor de casal, passando pelo
chergão, ponchos e pelos tapetes laterais de
cama.
A
PM de MOSTARDAS credenciou e padronizou produtos e preços
e abrigou-os sob a tradicional marca "Mostardeiro"
e faz a comercialização aos visitantes
no quiosque da praça, da produção
de todos os artesãos e artesãs, sem limitar
a atividade direta de 14 artesanatos caseiros que se
somam ao da PM, num trabalho exemplar de promoção
social em que se "ajuda a pescar em vez de dar
o peixe" e que me foi exposto pela sra Mara, coordenadora
das atividades do galpão de artesanato e pelas
funcionárias da PM de MOSTARDAS que se revezam
em turnos no quiosque e confirmado pelas artesãs
independentes que visitei em casa.
Vimos
na cidade quatro hotéis simples - Schaeffer,
Municipal, Mostardense e São Luiz - com preços
modestos, mas novamente recomenda-se ao visitante examinar
pessoalmente antes de escolher.
No
contorno da praça, além da Igreja Matriz
e de um casario antigo nos alinhamentos de calçada
- do qual é bom exemplo o pequeno hospital local,
denunciando a tradição ibérica
da região - visitamos a rua XV de Novembro, de
casas baixas e telhas portuguesas, com pequeno comércio
e passeio de pedestres, bancos e canteiros de flores
ocupando toda sua largura sem carros, uma típica
e agradável rua de pedestres ( postal __ ).
No
lado oposto da praça, encontramos o escritório
do IBAMA, que administra o Parque Nacional da Lagoa
do Peixe ( lagoadopeixe@terra.com.br ), cuja maior parte
em verdade está situada dentro do município
de Tavares e funciona em antiga agência bancária
do Sulbrasileiro, com apenas três funcionários:
Eda e Ireno, e a chefe Luisa J S Lopes, veterinária
mineira responsável pelo Parque Nacional e que
já morou em Rondônia antes de escolher
MOSTARDAS para viver.
Dra
Luisa discorre com notável conhecimento e segurança
sobre a Lagoa do Peixe e sua importância para
o equilíbrio ambiental da região e mesmo
em termos mais amplos, já que se sabe que aves
migratórias vem de mais de 12.000 km de distância
para passar nesse eco-sistema a primavera e parte do
verão do hemisfério Sul, sem falar nas
dezenas de espécies nativas. Informa sobre as
poucas vias de acesso e os cuidados recomendáveis
aos visitantes conscientes, que podem desfrutar da observação
da natureza, das paisagens fascinantes e dos animais,
sem interferir negativamente em seu comportamento e
equilíbrio. Mostram-me um ?painel com fotos de
excelente qualidade tendo por tema os animais e paisagens
do Parque Nacional, oferecidas por visitantes com sensibilidade
e alta qualificação em fotografia.
Embora
a equipe do IBAMA não se queixe aos visitantes,
fica claro de que o órgão não tem
veículos nem pessoal para vigilância e
proteção do Parque Nacional, que tem 34.400
há´s ( mapa __ ) e ainda não está
sequer desapropriado em sua totalidade, resultando no
transito permanente de moradores, proprietários
e visitantes de motivação variada, em
uma teia interminável de estradas e trilhas,
tanto pela praia quanto a partir da RST-101.
O
acesso mais fácil e seguro se faz pela beira
do mar, a partir do prolongamento da avenida de entrada
de MOSTARDAS, em estrada de terra com cerca de 13 km,
dos quais os primeiros 8km são ensaibrados e
em regular estado de trafegabilidade e os últimos
5 km são trilhas sobre areia úmida, seguindo
o roteiro da rede elétrica.
Já
no balneário Mostardense, diversos caminhões
frigoríficos estacionados - boa parte deles com
placas de Santa Catarina - chamam a atenção
e induzem a perguntas ( aos motoristas e funcionários
da lanchonete onde estes costumam passar o tempo de
espera ), sobre sua atividades ali e fico sabendo que
buscam tainha, linguado, papa-terra e outros peixes,
pescados em redes de arrastão dispostas ao longo
do litoral Sul do RGS, além de camarão,
capturado nas lagoas desse litoral, inclusive na Lagoa
do Peixe, e que depois serão vendidas nos mercados
de Laguna ( pasme! ) e Florianópolis.
No
percurso de 35 km, desde este ponto até a barra
da Lagoa do Peixe, encontram-se dezenas de cabos de
redes dispostas no mar e que serão recolhidas
por tracionamento com caminhonetes; pilhas de caixas
de PVC ( foto ) para coleta e transporte do pescado
pelas caminhonetes dos pescadores até os caminhões
frigoríficos dos compradores; vários locais
de descarte de entranhas de pescado ( foto ), limpos
na própria praia; milhares e milhares de pássaros,
do João Grande à "Maria sem vergonha",
passando pelas diversas variedades de gaivotas, que
se alimentam sem esforço desse descarte de proteína.
Quando
manobramos para aproximar o carro dos bandos de gaivotas
pousadas na areia, notamos que se movimentam de modo
a ficar sempre de costas para os intrusos que somos,
o carro e eu, facilitando-lhes alçar vôo
e a fuga.
Ao
longo do percurso litorâneo, encontramos desde
equipes com camionetes modernas e com tração
4x4, até antigos VW, com bancos de tábuas
amenizadas por pelegos e lataria completamente remendada
a martelo, em fundo de quintal, como que saídos
de um cenário "Mad Max", tanto pelo
carro quanto pela miserabilidade dos proprietários,
pescadores ocupados em estender seu espinhel rumo ao
almoço ou jantar ou ao nada.
Com
auxilio do acaso, o viajante encontra ao longo desse
litoral filhotes de leões marinhos ( foto / ), focas, pinguins ou eventualmente animais de
maior porte como orcas e baleias francas, vivas nas
margens ou mineralizando na areia da praia.
Na
barra da Lagoa do Peixe, umas poucas casas restantes
da antiga vila de pescadores ( foto ), que chegou
a ter duas pousadas precárias muito conhecidas
dos pescadores amadores do RGS, resistem à proibição
de ocupação econômica e moradia
naquela reserva ambiental após a Lei que criou
o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, enquanto pescadores
de subsistência pescam com tarrafa ( foto )
na foz do canal.
O
outro acesso, dentro do município de TAVARES,
dá acesso ao interior do Parque da Lago do Peixe,
diretamente a partir da RST-101, cerca de 10 km ao norte
dessa cidade, por estrada de cerca de 9 km de trilha
precária, cujos primeiros 3 km são elevados
e secos; 2,5 km são baixos e parcialmente cobertos
pela lagoa em períodos de muita chuva e barra
fechada junto ao mar e onde estão trechos de
turfa ( foto ), de alto risco de atolamento e que
incluem 3 pontes precárias ( foto ), finalizando
com cerca de 3,5 km de trilha sobre o leito arenoso
da lagoa, de traçado variável, a partir
da "tentativa e erro" dos moradores da vila
do farol de Mostardas ( fotos e ) que por ali
costumam encurtar caminho ( mais longo pela beira do
mar ), até chegar-se à linha da praia
( foto ), onde esse caminho entre as casas se confunde
com tantos outros desaguadouros de canais que drenam
as dunas e lagoas e vão desaguar na praia.
Viajando
após alguns dias de tempo seco, fizemos todos
esses percursos com um Fiat Premio 92 ( carro sem tração
especial ), mas em períodos mais chuvosos, é
unânime entre as pessoas com quem conversamos,
a recomendação de uso de veículos
tracionados 4x4 para poder vencer essas dificuldades
então agravadas.
Sabendo-se
que a pesca e a captura do camarão estão
proibidas na Lagoa do Peixe e na praia, é inevitável
refletir sobre o impasse ético entre o direito
da Lei - fundamentada no conhecimento científico
de técnicos altamente qualificados e na vigilância
mantida pelo Poder Público - de impedir o acesso
à pesca e à captura de camarão,
pela população que está ali há
séculos, sobrevivendo exatamente da exploração
desse recurso, agora percebido pela Sociedade, como
ameaçado de extinção.
Como
fazer cumprir a lei sem oferecer-lhe alternativas de
subsistência e sem jogá-la à marginalidade?
Por outro lado, como aplicar a lei, em Parque ainda
não desapropriado e repleto de estradas e trilhas
que lhe dão acesso ao interior, cruzando de propriedades
ainda não indenizadas ? Tudo isto sem veículos
nem pessoal qualificado ou quantificado para missão
dessa natureza ?
TAVARES, com população de 5.100 habitantes,
é a mais pobre das cidades visitadas e fica evidenciada
suas carências ao visitante, já ao ingressar
na rua principal - com pistas desnecessariamente largas
( e caras ) para uma cidade tão pobre - com amplo
canteiro central em que também encontramos um
quiosque de promoção dos produtos locais,
principalmente artesanato de lã, junto à
canchas esportivas e equipamentos de lazer infantil,
com farta iluminação - local de reunião
da comunidade, que conta inclusive com um palanque de
concreto, sempre pronto para os eventos sociais e políticos
da cidade.
A
arquitetura da maioria dos prédios não
apresenta uma característica predominante, embora
haja numerosas construções alinhadas no
passeio, com alguma influência açoriana
e a capela de Santo Antônio apresente-se como
uma bela construção, digna de citação,
foto e visita.
A
hotelaria se resume ao hotel Brum - paralizado por tratamento
de saúde do proprietário em P Alegre,
na ocasião de nossa visita - e ao hotel Paiva,
em frente à praça, com atendimento muito
gentil e saborosa comida caseira no restaurante, mas
modestíssimo nos quartos, resultando total falta
de alternativas ao visitante.
Como
é na área de TAVARES que se encontra a
maior parte do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, mas
é MOSTARDAS que acessamos antes e abriga o escritório
do IBAMA e tem mais recursos, o pouco turismo ?gerado
pela visitação ecológica ao Parque,
não parece beneficiar a economia de TAVARES.
Na
Prefeitura Municipal, onde buscamos informações
sobre o município e seus atrativos, fui atendido
pelo Vice-Prefeito - e ex-Secretário da Cultura
em gestão antiga - sr Luiz Agnelo Chaves Martins,
afetuosamente chamado de "Gordo" pela população,
pessoa interessantíssima, que resumiu-nos a rica
e surpreendente cultura popular de TAVARES, que além
de corrida de cavalhadas, com lutas de "mouros
e cristãos" - que o pesquisador Paixão
Cortes explicava e coreografava no Correio do Povo de
4 décadas passadas -uma espécie de sambaquis
denominados "quicumbis", abriga tradições
e manifestações populares pouquíssimo
conhecidas, de origem afro-riograndenses como ternos
juninos, de reis e de santos padroeiros, cantigas e
cantos de trovadores, danças típicas do
litoral, e para minha surpresa, tem um Rei local, o
Rei do Congo, escolhido entre os descendentes da tribo
africana predominante que constituiu a população
escrava da região e preservou sua cultura e tradições,
permeando os costumes da comunidade branca. ?
Até
mesmo na culinária, Luiz Agnelo identifica peculiaridades
da região, como o feijão doce, entre outros
pratos e iguarias, que não conseguimos encontrar
nos restaurantes que visitamos.
É
inevitável perguntar-se dos motivos de tal variedade
cultural ser tão pouco conhecida e promovida
como forma de atração turística
à cidade.
O
Vice-Prefeito Luiz Agnelo forneceu-nos um folheto com
depoimento do pesquisador e historiador regionalista
( entre tantas outras qualificações )
Paixão Cortes sobre este assunto em encontro
de Prefeitos do Litoral, em1988 e a partir disto procurei
o historiador, que reforçou o depoimento de Luiz
Agnelo, atribuindo à região visitada,
a origem de todas as tradições e cultura
popular gauchesca, hoje disseminadas por todo o RGS.
No
percurso da cidade à praia da Lagoa dos Patos,
chamou-nos a atenção uma propriedade com
galpão, trator, canteiro de preparação
de adubo orgânico, irrigação e extensos
canteiros de legumes ( foto ). Conversando com o
proprietário Jair, ouvimos uma interessante história
pessoal de iniciativa, coragem e dedicação
técnica, com resultados animadores e que deveriam
exemplar a ação de outros tantos produtores
nesta região da metade sul do RGS em geral, onde
proprietários de milhares de hectares de terra
cultivam arroz e criam bovinos para venda e ovinos para
o consumo, mas compram leite em caixinha no supermercado,
com laranjas de TAQUARI, alface de PORTÃO e tomates
de S. PAULO.
Numa
região onde raramente se vê horta ou pomar
( comuns nas colônias italiana e/ou alemã
), Jair instalou-se com os parcos recursos da venda
de 6 há´s em SC e em apenas 8 meses de
trabalho duro, já colhe 3,5 há´s
de verduras e legumes ( fotos a ), que cultiva
sozinho, com a ajuda possível de um filho de
11 anos e seu conhecimento de técnico agrícola
e tem produção para vender na CEASA de
P ALEGRE e se entusiasma ao falar de seus planos futuros,
com a mulher e 3 filhos ( um deles já nascido
aqui na sua Canaã ).
Após
o percurso - não sem sustos - dessa estrada que
leva à Lagoa dos Patos, chegamos próximo
ao Farol Capão da Marca ( foto ), possivelmente
o mais gracioso de todos quanto sinalizam a restinga,
pelo Atlântico ( Torres, Arroio do Sal, Capão
da Canoa, Tramandaí, Cidreira, Berta, Solidão,
Estreito, Mostardas, Conceição, Barra,
Molhe Leste, Molhe Oeste, Sarita, Verga, Albardão
e Chui ), seja pelo "mar de dentro" do RGS
que é a Lagoa dos Patos ( Itapuã, Cristovão
Pereira, Capão da Marca ).
Enquanto
os cavalos vão marcando com as ferraduras o asfalto
do acostamento da estrada, amolecido pelo sol ( foto ), da mesma forma que o progresso econômico
é marcado e não pode ignorar os hábitos
e valores culturais do povo das comunidades onde chega
e transforma, pois a sabedoria está em harmonizar
as tradições mais caras às pessoas
do lugar, com a melhoria da qualidade de vida para todos.
De
certa forma, "lição de casa"
que TAVARES precisa fazer rapidamente, se a população
pretende tirar proveito das transformações
que por certo vão afetar a região com
o acesso pavimentado, usando o rico potencial cultural
que tem para oferecer a um RGS tão esquecido
de si mesmo e tão encantado com a cultura pasteurizada
dos Shopping Center´s, é justamente organizar
o acervo cultural ainda disponível e incentivar
os grupos populares que cultivam tais manifestações,
valorizando-as e ampliando sua divulgação,
tanto local como regional e nacionalmente; reuni-los
e integra-los em instituições culturais
e os CTG´s são o caminho espontâneo
e óbvio, mas antes de se fazer conhecida pelos
gaúchos, brasileiros e até estrangeiros,
a rica e variada cultura que Luiz Agnelo e Paixão
Cortes conhecem, deve ser melhor conhecida pelo povo
local.
Como conclusão, diria que devemos não
só conhecer melhor esta região de nosso
Estado - face à riqueza cultural que ela detém
e involuntariamente esconde - como prestar muita atenção
nela, pois a conclusão do asfaltamento da RST-101
até S JOSÉ DO NORTE, vai dar escoamento
à madeira de exportação da região
por RIO GRANDE, com percurso de menos de 200 km, ao
contrário dos 520 a 530 km hoje necessários
para contornar a Lagoa dos Patos; a pavimentação
permitirá que o trafego vindo de RIO GRANDE e
mesmo PELOTAS à P ALEGRE e nordeste do RGS e
vice-versa, tenham um caminho alternativo, sem enredar-se
no transito da capital e com direito à visitação
das atrações dessa esquecida faixa litorânea
como o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, que talvez
acabe "descoberto" e visitado mais pelos argentinos
e uruguaios a caminho de SANTA CATARINA, do que pelos
gaúchos, que parecemos só ver atração
turística em GRAMADO.
Quanto
ao potencial de produção agrícola
para abastecer aos maiores mercados consumidores da
Região Metropolitana, o futuro não parece
tão nítido, pois os solos são pobres
de nutrientes e carecem de correção onerosa
e as terras, pelas informações que tivemos,
estão estranhamente caras, mas o potencial madeireiro
da região é tão importante que
muito ainda está por ser feito, inclusive com
a instalação de industria moveleira, de
casas pré-fabricadas e outras alternativas de
beneficiamento da madeira que agreguem mais valor e
mão de obra, gerando trabalho e riqueza para
a população local.
Bibliografia:
- Material de divulgação turística
das Prefeitura Municipais de Palmares do Sul, Mostardas
e Tavares ;
- Reportagem de Zero Hora de 25 / 11 / 96, pg 62 ;
- Caderno Especial da série Paraísos,
da Gazeta Mercantil - RGS, de 21 / 09 / 98 ;
- Faróis da Solidão - Edição
de brinde da Riocell - RGS ;
- Guia Quatro Rodas ano 2000 ;
- http://www.paginadogaucho.com.br/lpeixe/index.htm;
- www.paixaocortes.com.br;
- www.ibge.gov.br;
|